Fora de alcance

Está fora do nosso alcance que, em um dia qualquer, o sol desponte ou se esconda, por toda a tarde, atrás de nuvens. Está fora do nosso controle que venha um pássaro e pouse sobre um galho e chame nossa atenção para fora da janela. Está além de nosso poder de decidir que um desconhecido de repente ligue um rádio ao nosso lado no ônibus e faça tocar a música preferida de um amor antigo; ou que nos alcance, ao cruzarmos uma calçada, o cheiro bom de um prato que nos faça ter saudade da infância. Está além de nossas forças que as pessoas a quem amamos morram. Está fora do horizonte de nosso entendimento que as pessoas creiam em deus e que em algum momento um homem tenha composto a Ária da quarta corda.

Apesar disso, nossa maior sede é pelo que está fora do nosso alcance. Nossa maior fome é pelo que transcende nossas energias. Nosso maior desejo é pelo que não nos cabe decidir. De certo modo, a ideia de que devemos buscar, a todo custo, a realização pessoal no trabalho digno, no amor complacente, na retidão cotidiana parece não se sustentar completamente. A convicção de que, por meio exclusivo de nossos esforços, alcançaremos a realização plena se fragiliza diante da constatação de que algo fundamental estará sempre fora de nossas mãos, mas poderá chegar até elas, ainda que não tenhamos nos esforçado para isso.

Costumo contar a algumas pessoas mais próximas em que circunstâncias chegou até mim o desejo de ser pai. Não o tinha procurado; a paternidade, até então, nunca tinha sido meu projeto de vida. Sequer tinha pensado sobre a possibilidade, quando, aos vinte anos, entrei numa livraria e, de modo muito aleatório, comecei a pegar alguns livros e folheá-los. Em um deles, do qual o título não me lembro, li um pequeno relato de um senhor de oitenta anos que falava sobre como voltou a experienciar a infância a partir do momento em que se tornou avô de uma linda menina.

Nada de excepcional nisso, não fosse a cena que, embora em nenhum momento tenha sido descrita no relato, ficaria fortemente gravada em minha memória: a comovente cena de um avô acariciando sua netinha. O que ficou gravado em mim foi o que não havia no visível do texto.

Com o tempo, porém, a feição daquele senhor foi-se tornando estranhamente distante. Seus traços foram se perdendo na nuvem da lembrança, desfazendo-se assim os contornos do rosto. Em seu lugar, foi surgindo minha própria face. Meus dentes foram ocupando o seu sorriso. E, no movimento incompleto de uma mão alheia, meus dedos continuavam um gesto de carinho. Foi esse carinho que, em momento que não consigo precisar, despertou o primeiro sorriso da minha filha. E nessa valiosa imagem, que chegou até mim sem que eu a buscasse, estamos minha filha (que nascerá um dia) e eu, unidos pelo gesto e pelo sorriso.

Ao revisitar diariamente essa cena, sempre fico com a impressão de que talvez nossa profunda vocação humana nem sempre deva se realizar no esforço de possuir, de controlar, de decidir e de compreender… Talvez a questão não seja alcançar algo, mas se deixar alcançar. Estar disponível e desguardado. Talvez, para nos sentirmos realizados, seja preciso simplesmente nos colocar ao alcance.